"Colhe de que recordes"

Colhe de que recordes

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada É livre

Ricardo Reis Não só quem nos odeia ou nos inveja . . Não só quem nos odeia ou nos inveja Nos limita e oprime; quem nos ama Não menos nos limita. Que os deuses me concedam que, despido  De afectos, tenha a fria liberdade  Dos píncaros sem nada. Quem quer pouco, tem tudo; quem quer … Continuar a ler

Prazer

Ricardo Reis . Prazer . Prazer, Mas devagar, Lídia, que a sorte àqueles não é grata Que lhe das mãos arrancam. Furtivos retiremos do horto mundo Os depredandos pomos. Não despertemos, onde dorme, a Erínis Que cada gozo trava. Corno um regato, mudos passageiros, Gozemos escondidos. A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos.     Fernando Pessoa (1988-1935)

Firme contigo

Ricardo Reis Ninguém a Outro Ama  . . Ninguém a outro ama, senão que ama O que de si há nele, ou é suposto. Nada te pese que não te amem. Sentem-te Quem és, e és estrangeiro. Cura de ser quem és, amam-te ou nunca. Firme contigo, sofrerás avaro De penas.  . . Fernando Pessoa … Continuar a ler

Lídia

Ricardo Reis (12/06/14) VEM SENTAR-TE comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.) . Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para … Continuar a ler

"Cumpramos o que somos. Nada mais nos é dado."

Ricardo Reis  Cada Um * Cada um cumpre o destino que lhe cumpre, E deseja o destino que deseja; Nem cumpre o que deseja, Nem deseja o que cumpre.   Como as pedras na orla dos canteiros O Fado nos dispõe, e ali ficamos; Que a Sorte nos fez postos Onde houvemos de sê-lo.   … Continuar a ler

Quando, Lídia, vier o nosso outono – Pessoa / Ricardo Reis

“Quando, Lídia, vier o nosso outono Com o inverno que há nele, Preservemos Um pensamento, não para a futura Primavera, que é de outrem, Nem para o estio, de quem somos mortos, Senão para o que fica do que passa — O amarelo atual que as folhas vivem E as torna diferentes” . Ricardo Reis

Ricardo Reis por Almada e "Aqui, Neera, longe"

  Ricardo Reis, pormenor do mural de Almada Negreiros  na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1958). //   De formação clássica, “pagão por carácter”, segue Caeiro no amor da vida rústica, junto da natureza. Mas, enquanto o Mestre, menos culto e complicado é (ou pretende ser) um homem franco, alegre, Reis é um ressentido … Continuar a ler

Tão Cedo

Ricardo Reis   Tão Cedo   Tão cedo tudo quanto passa!  Morre tão jovem ante os deuses quanto Morre!  Tudo é tão pouco! Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe E cala.  O mais é nada   * Fernando Pessoa (1888 – 1935)    

O poeta portuense Ricardo Reis…

Ricardo Reis Cada Um Cada um cumpre o destino que lhe cumpre, E deseja o destino que deseja; Nem cumpre o que deseja, Nem deseja o que cumpre. Como as pedras na orla dos canteiros O Fado nos dispõe, e ali ficamos; Que a Sorte nos fez postos Onde houvemos de sê-lo. Não tenhamos melhor … Continuar a ler

colhe o dia!

Ricardo Reis Uns Uns, com os olhos postos no passado, Vêem o que não vêem: outros, fitos Os mesmos olhos no futuro, vêem O que não pode ver-se. Por que tão longe ir pôr o que está perto — A segurança nossa?  Este é o dia, Esta é a hora, este o momento, isto É … Continuar a ler

Quem?…

Ricardo Reis (26-5-1930) Se recordo quem fui, outrem me vejo, E o passado é o presente na lembrança. Quem fui é alguém que amo Porém sòmente em sonho. E a saudade que me aflige a mente Não é de mim nem do passado visto, Senão de quem habito Por trás dos olhos cegos. Nada, senão … Continuar a ler

suave é viver só…

Ricardo Reis Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias. A realidade Sempre é mais ou menos Do que nós queremos. Só nós somos sempre Iguais a nós-próprios. Suave é viver só. Grande e nobre e sempre Viver simplesmente. Deixa a dor nas … Continuar a ler

O jogo de xadrez…

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia Tinha não sei qual guerra, Quando a invasão ardia na Cidade E as mulheres gritavam, Dois jogadores de xadrez jogavam O seu jogo contínuo. À sombra de ampla árvore fitavam O tabuleiro antigo, E, ao lado de cada um, esperando os seus Momentos mais folgados, Quando havia movido … Continuar a ler