Contas-entes ligados por um fio-memória

(…) Outra vez te revejo, Cidade da minha infância pavorosamente perdida… Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui… Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, E aqui tornei a voltar, e a voltar E aqui de novo tornei a voltar? Ou somos todos os Eu que estive aqui ou … Continuar a ler

Tudo menos saber o que é Mistério!

Álvaro de Campos Demogorgon . Na rua cheia de sol vago há casas paradas e gente que anda. Uma tristeza cheia de pavor esfria-me. Pressinto um acontecimento do lado de lá das frontarias e dos movimentos. . Não, não, isso não! Tudo menos saber o que é Mistério! Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas, Não … Continuar a ler

Não tardo, que eu nunca tardo…

Álvaro de Campos Lisbon Revisited (1923) NÃO: Não quero nada. Já disse que não quero nada.  Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.  Não me tragam estéticas! Não me falem em moral!  Tirem-me daqui a metafísica! Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas Das ciências (das ciências, Deus meu, das … Continuar a ler

De Kant a Hegel…

Álvaro de Campos   Gostava Gostava de gostar de gostar. Um momento… Dá-me de ali um cigarro, Do maço em cima da mesa de cabeceira. Continua… Dizias Que no desenvolvimento da metafisica De Kant a Hegel Alguma coisa se perdeu.  Concordo em absoluto.  Estive realmente a ouvir. Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho). Que … Continuar a ler

Quais outros?

Álvaro de Campos Na Casa Defronte . Na casa defronte de mim e dos meus sonhos, Que felicidade há sempre!  . Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi. São felizes, porque não sou eu.   . As crianças, que brincam às sacadas altas, Vivem entre vasos de flores, Sem dúvida, eternamente.  . … Continuar a ler

"E então será dia."

Magnificat . Quando é que passará esta noite interna, o universo, E eu, a minha alma, terei o meu dia? Quando é que despertarei de estar acordado? Não sei. O sol brilha alto, Impossível de fitar. As estrelas pestanejam frio, Impossíveis de contar. O coração pulsa alheio, Impossível de escutar. Quando é que passará este … Continuar a ler

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos"

Álvaro de Campos 15-10-1929   . Aniversário . No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que … Continuar a ler

"Como um balde que se entornou"…

[Ms.]   16/8/1934   … COMO, NOS DIAS de grandes acontecimentos no                                                           centro da cidade, Nos bairros quasi-excentricos as conversas em silencio ás                                                                                  portas ­- A expectativa em grupos… Ninguem sabe nada. Leve rastro de brisa… Coisa nenhuma que é real E que, com um affago ou um sopro, Toca o que ha até … Continuar a ler

Corrimão…

  Álvaro de Campos   [“Vamos devagar”]     [Ms.]     5/1/1935   Não sei se os astros mandam neste mundo, Nem se as cartas ­- As de jogar ou as do Tarot ­- Podem revelar qualquer coisa. . Não sei se deitando dados Se chega a qualquer conclusão. Mas tambem não sei Se … Continuar a ler

Binómio de Newton

FERNANDO PESSOA  Poesias de Álvaro de Campos O Binómio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso. óóóó—óóóóóó óóó—óóóóóóó óóóóóóóó (O vento lá fora.) Álvaro de Campos, 15-1-1928

símbolos IV

        Álvaro de Campos   7-11-1933           Psiquetipia (Ou Psicitipia) Símbolos.  Tudo símbolos Se calhar, tudo é símbolos… Serás tu um símbolo também? Olho, desterrado de ti, as tuas mãos brancas Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa. Pessoas independentes de ti… Olho-as: também serão símbolos? Então todo o mundo é símbolo e … Continuar a ler

Belo!…

O Binômio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso. óóóó—óóóóóó óóó—óóóóóóó óóóóóóóó (O vento lá fora.)                                        Álvaro de Campos, 15-1-1928.