A nova era electrónica e orgânica

(em português-br)

“À medida que a sociedade de mercado se definia, passava também a literatura ao papel de mercadoria de consumo. O público tornava-se o mecenas ou patrono. A arte mudou de função, deixando de ser o guia da percepção para se fazer uma das amenidades da vida, uma mercadoria corrente. Por outro lado, porém, o produtor ou artista viu-se compelido, como nunca o fora antes, a estudar o efeito de sua arte, o que por sua vez, veio a abrir para a atenção humana novas dimensões da função da arte .Enquanto os manipuladores do mercado de massa tiranizavam o artista, este, em seu isolamento, chegava a nova compreensão, mais lúcida e penetrante, do papel crucial das formas e de arte, como meio de realização e de ordem para o homem.A arte, identificando-se com este mandato e responsabilidade pela ordemhumana, tornou-se tão onivalente quanto os mercados de massas; se esses haviam criado o planalto de afluência, no alto do qual hoje nos achamos, seria a arte que nos ia dar a percepção simultânea do novo escopo e das novas potencialidades para a beleza e a ordem quotidianas que a vida humana passou a poder ter em todos os seus aspectos.Se considerarmos os fatos retrospectivamente, pode muito bem acontecer que sejamos obrigados a admitir haver sido a era dos mercados de massa a criadora das condições prévias para uma ordem mundial, tanto de beleza quanto de bens de consumo. É muito fácil demonstrar que os mesmos meios que serviram para criar, pela produção em massa, o mundo de abundância do consumidor, também serviram para dar base mais segura e conscientemente controlada às mais altas manifestações da produção artística. E, como de costume, quando alguma área anteriormente opaca se torna translúcida, o fato indica haver-se passado para nova fase de onde se pode contemplar com facilidade e clareza os contornos da situação precedente. Não fosse tal circunstância e não seria absolutamente possível escrever A Galáxia de Gutenberg. À medida que se implanta a experiência da nova era eletrônica e orgânica e se destacam cada vez mais fortes os seus principais contornos, a era mecânica que a precede torna-se completamente inteligível. Agora que a linha de montagem perde a sua ascendência mecânica ante os novos padrões de informação sincronizada pela fita elétrica dos computadores, os milagres da produção em massa ganham completa e perfeitainte leigibilidade. Apenas, vale notar, as inovações da automação, fazendo nascer comunidades sem trabalho e sem propriedade, envolvem-nos em novas incertezas.

Herbert Marshall McLuhan (Julho 21, 1911 – Dezembro 31, 1980)


In: A Galáxia de Gutenberg: a formação do homem tipográfico (1962)

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