A ideologia neoliberal

(em português-br)

“(…) Não apenas economistas neoclássicos como Milton Friedman e Robert Lucas, mas os da Escola Austríaca (Friedrich Hayek) e da Escola da Escolha Pública (James Buchanan) conquistaram influência e, com a colaboração de jornalistas e outros intelectuais públicos conservadores, construíram a ideologia neoliberal com base nas antigas idéias do laissez-faire e numa economia matemática que oferecia legitimidade “científica” ao novo credo7. O objetivo explícito era reduzir os salários indiretos por meio da “flexibilização” das leis de proteção ao trabalho, fossem as que representavam custos diretos para as empresas, fossem as que envolviam a redução dos benefícios sociais proporcionados pelo Estado. O neoliberalismo também procurava reduzir o porte do aparelho do Estado e desregular todos os mercados, principalmente, os financeiros. Alguns dos argumentos usados para justificar a nova abordagem foram a necessidade de motivar o trabalho duro e recompensar os “melhores”, a defesa da viabilidade dos mercados auto-regulados e dos mercados financeiros eficientes, a alegação de que há apenas indivíduos e não uma sociedade, a adoção do individualismo metodológico ou de um método hipotético dedutivo em ciências sociais e, por fim, a negação do conceito de interesse público que apenas faria sentido se houvesse de fato uma sociedade.

Com o capitalismo neoliberal emergiu um novo regime de acumulação: a financeirização, ou capitalismo encabeçado pelo setor financeiro. O “capitalismo financeiro” antevisto por Rudolf Hilferding8, em que o capital bancário e o industrial se fundiriam sob o controle do primeiro, não chegou a ocorrer, mas materializaram-se a globalização financeira – a liberalização dos mercados financeiros e um grande aumento dos fluxos financeiros em torno do mundo – e o capitalismo encabeçado pelo setor financeiro, ou capitalismo financeirizado. Suas três características centrais são: um enorme aumento do valor total dos ativos financeiros em circulação no mundo como conseqüência da multiplicação dos instrumentos financeiros facilitada pela securitização e pelos derivativos; a separação entre a economia real e a economia financeira, com a criação descontrolada de riqueza financeira fictícia em benefício dos rentistas capitalistas; e um grande aumento da taxa de lucro das instituições financeiras, sobretudo de sua capacidade de pagamento de grandes bonificações aos operadores financeiros por sua habilidade de aumentar as rendas capitalistas9. Outra maneira de expressar a profunda mudança dos mercados financeiros associada à financeirização é dizer que o crédito deixou de se basear principalmente em empréstimos de bancos a empresas no contexto do mercado financeiro regular, para se basear cada vez mais em títulos negociados por investidores financeiros (fundos de pensão, fundos de hedge, fundos mútuos) nos mercados de balcão. A adoção de “inovações financeiras” complexas e obscuras,combinada com um enorme aumento do crédito sob a forma de títulos, levou àquilo que Henri Bourguinat e Eric Brys chamaram “uma disfunção generalizada do genoma das finanças”10, na medida em que tal mistura de inovações financeiras ocultava e ampliava o risco envolvido em cada inovação. Essa mistura, combinada com a especulação clássica, levou o preço dos ativos financeiros a aumentar, ampliando artificialmente a riqueza financeira ou o capital fictício, que se expandiu a uma taxa muito mais elevada do que a da produção, ou riqueza real. Nesse processo especulativo, os bancos representaram um papel ativo porque, como destaca Robert Guttmann, “a fenomenal expansão do capital fictício foi assim sustentada por bancos que direcionaram muito crédito aos compradores de ativos para financiar suas transações especulativas com alto grau de alavancagem e, portanto, em escala muito ampliada”11. Dada a competição vinda dos investidores institucionais, cuja participação no crédito total não deixou de crescer, os bancos comerciais decidiram participar do processo e usar o shadow bank system, ou sistema bancário paralelo, que estava sendo desenvolvido para “limpar” de seus balanços patrimoniais os riscos envolvidos nos novos contratos: isso se faz pela transferência das inovações financeiras arriscadas a investidores financeiros, as securitizações, os swaps de inadimplência em crédito e os veículos especiais de investimento12. A incrível rapidez que caracterizava o cálculo e a transação desses contratos complexos negociados em todo o mundo foi possível, naturalmente, graças à revolução da tecnologia da informação, com o respaldo de computadores poderosos esoftwares inteligentes. Em outras palavras, a financeirização foi alimentada também pelo progresso tecnológico.(…)”


Luiz Carlos Bresser-Pereira (n.1934)
In: A crise financeira global e depois: um novo capitalismo?

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