História e memória

 (…) a oposição presente/passado não é um dado natural mas sim uma construção. Por outro lado, a constatação de que a visão de um mesmo passado muda segundo as épocas e que o historiador está submetido ao tempoem que vive, conduziu tanto ao cepticismo sobre a possibilidade de conhecer o passado como a um esforço para eliminar qualquer referência ao presente (…)

(…) Até ao Renascimento e mesmo até o final do século XVIII, as sociedades ocidentais valorizaram o passado, o tempo das origens e dos ancestrais surgindo para eles como uma época de inocência e felicidade. Imaginaram-se eras míticas: idades do ouro, o paraíso terrestre… a história do mundo e da humanidade apareciam como uma longa decadência. Esta ideia de decadência foi retomada para exprimir a fase final da história das sociedades e das civilizações; ela insere-se num pensamento mais ou menos cíclico da história (Vico, Montesquieu, Gibbon, Spengler, Toynbee) e é em geral o produto de uma filosofia reaccionária da história, um conceito de escassa utilidade para a ciência histórica. Na Europa do final do século XVII e primeira metade do XVIII, a polémica sobre a oposição antigo/moderno, surgida a propósito da ciência, da literatura e da arte, manifestou uma tendência à reviravolta da valorização do passado: antigo tornou-se sinónimo de superado, e moderno de progressista. Na realidade, a ideia de progresso triunfou com o Iluminismo e desenvolveu-se no século XIX e início do XX, considerando sobretudo os progressos científicos e tecnológicos.

(…)

(…) Depois da Revolução Francesa, à ideologia do progresso foi contraposto um esforço de reacção, cuja expressão foi sobretudo política, mas que se baseou numa leitura “reaccionária” da história. Em meados do século XX, os fracassos do marxismo e a revelação do mundo estalinista e do Gulag, os horrores do fascismo e principalmente do nazismo e dos campos de concentração, os mortos e as destruições da Segunda Guerra Mundial, a bomba atómica – primeira encarnação histórica “objectiva” de um possível apocalipse –, a descoberta de culturas diversas do ocidente conduziram a uma crítica da ideia de progresso (recorde-se “La crise du progrès”, de Friedmann, de 1936). A crença num progresso linear, contínuo, irreversível, que se desenvolve segundo um modelo em todas as sociedades, já quase não existe.

(…)

Jacques Le Goff (n. 1924)

In.: “História e memória”

(tradução livre a partir do português-Brasil)

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