o tipo perfeito do erro da filosofia

poemas de Alberto Caeiro

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         A Guerra
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         A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.  

         A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa. 

         Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.

         Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.

         Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.  

         A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento. 

         A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.  

         Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!
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         Fernando Pessoa (1888-1935)

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