espelho mágico…

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“Tal como Narciso, enamorado pela sua própria imagem a ponto de nela acabar por mergulhar, também nós nos deixamos confundir e prender por aquilo que vemos nessa superfície especular, aqui pensada concretamente a partir da nossa relação sensível com a publicidade exterior. Trata-se de uma das muitas formas possíveis de nos vermos espelhados, nesse processo obsessivo de procura de visibilidade para nós mesmos.

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Nos intervalos de «recreio», entre as múltiplas tarefas que obrigatoriamente cumprimos no nosso dia a dia, entre a casa e o trabalho, o trabalho e a casa, nesses curtos «passeios» que servem de transporte ao nosso corpo pelas rotas do nosso destino, a nossamente divaga distraidamente, liberta das amarras da realidade concreta do aqui e agora, viajando por um espaço outro, uma espécie de no man’s land, e ocupando a mente com íntimos monólogos, à semelhança do que acontece com as personagens de Joyce. É precisamente neste lugar da imaginação e neste intervalo de fantasia, neste lugar de suspensão, que a publicidade procura intrometer-se para nos levar a perguntar: Quem sou? Como sou? Que aspecto tenho eu?

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Procuramos, pois, na visão o movimento que nos conduzirá à «verdade» e que nos fará habitar, provisoriamente, dentro de cada mupi e de cada painel que avistamos no nosso trajecto. Sabemos que o espelho é um símbolo ancestral da sabedoria e do conhecimento e que a utilização do espelho mágico é uma das formas de adivinhação mais antigas – veja-se, por brincadeira, a função do espelho na história infantil da Branca de Neve.

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Mas esta revelação da verdade, que pode mesmo traduzir a «Inteligência criadora» de uma ordem superior, não se faz apenas pela reflexão. Faz-se sobretudo pela participação, uma vez que acreditamos que existe uma «configuração entre o sujeito contemplado e o espelho que o contempla», isto é, que «a alma acaba por participar da própria beleza» e da imagem à qual se abre, acabando por sofrer uma transformação (cf. Chevalier e Gheeerbrant, 1997: 300-302).

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Nesta relação de reciprocidade, queremos ainda acreditar que, idealmente, a «pureza da alma» encontra na «superfície perfeitamente polida e pura do espelho» a «imagem da beleza incorruptível».

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Cortesia de:

Helena Pires*

* Departamento de Ciências da Comunicação – Universidade do Minho.

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