o côncavo sonho solitário…

Yesterdays 

.

Da estirpe de pastores protestantes

e de soldados sul-americanos

que opuseram aos Godos e às lanças

do deserto o seu pó incalculável,

sou e não sou. A minha estirpe autêntica

é a voz, que ainda escuto, do meu pai,

comemorando música de Swinburne,

e os grandes volumes que folheei,

folheei e não li, e que me bastam.

Sou o que me contaram os filósofos.

O acaso ou o destino, esses dois nomes

de uma secreta coisa que ignoramos,

ofereceram-me pátrias: Buenos Aires

e Nara, onde dormi uma só noite,

Genebra, as duas Córdovas, a Islândia…

Sou o côncavo sonho solitário

onde me perco ou tenciono perder-me,

a minha servidão aos dois crepúsculos,

as antigas manhãs, essa primeira

vez que vi mar ou uma ignorante lua

sem o seu Galileu nem seu Virgílio.

Sou cada instante do meu longo tempo,

cada noite de insónia escrupulosa,

cada separação e cada véspera.

Sou a memória errada da gravura

que há neste quarto e que os meus próprios olhos,

hoje apagados, viram claramente:

O Cavaleiro, a Morte e o Demónio.

Sou aquele outro que olhou o deserto

e que na eternidade ainda o contempla.

Sou um espelho e um eco. O epitáfio.

 

Jorge Luis Borges (1899 –1986)

Obras Completas III

A Cifra

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