espaço

Da Estética Transcendental do Espaço

 

Exposição metafísica de espaço 

 

1.° – O espaço não é um conceito empírico, derivado de experiências exteriores. Com efeito, para que eu possa referir certas sensações a qual­quer coisa de exterior a mim (quer dizer, a qual­quer coisa colocada em outro lugar do espaço di­verso do que ocupo), e, para que possa representar as coisas como de fora e ao lado umas das outras, e por conseguinte como não sendo somente dife­rentes, mas colocadas em lugares diferentes, deve existir já em princípio a representação do espaço. Esta representação não pode, pois, nascer por experiência das relações dos fenómenos exteriores, sendo que estas só são possíveis mediante a sua prévia existência.

          2.° – O espaço é uma representação necessá­ria, “a priori”, que serve de fundamento a todas as intuições externas. É impossível conceber que não exista espaço, ainda que se possa pensar que nele não exista nenhum objecto. Ele é considerado como a condição da possibilidade dos fenómenos, e não como uma representação deles dependente; e é uma representação “a priori”, que é o fundamento dos fenómenos externos.

 

          3.° – O espaço não é um conceito discursivo, ou, como se diz, universal das relações das coisas em geral, mas uma intuição pura. Com efeito, não se pode representar mais que um só espaço, e quando se fala de muitos, entende-se somente que se refere às partes do mesmo espaço único e uni­versal. Estas partes só se concebem no espaço uno e omnicompreensivo, sem que pudessem precedê-lo como se fossem seus elementos (cuja composição fora possível em um todo). O espaço é essencialmente uno; a variedade que nele achamos, e, consequentemente, o conceito universal de espaço em geral, fundam-se unicamente em limitações. Da­qui se segue que o que serve de base a todos os conceitos que temos do espaço, é uma intuição “a priori” (que não é empírica). O mesmo acontece com os princípios geométricos, como quando di­zemos, por exemplo, que a soma de dois lados de um triangulo é maior do que o terceiro, cuja cer­teza apodíctica não procede dos conceitos gerais de linha e triângulo, mas de uma intuição “a priori”.

 

          4.° – O espaço é representado como uma grandeza infinita dada. É necessário considerar todo conceito como uma representação contida em uma multidão infinita de representações distintas (das quais é expressão comum); mas nenhum conceito como tal contém em si uma multidão in­finita de representações. Sem embargo, assim concebemos o espaço (pois todas as suas partes coexistem no infinito). A primitiva representação do espaço é, pois, uma intuição “a priori” e não um conceito.

 

Crítica da Razão Pura (PARTE PRIMEIRA – DA TEORIA ELEMENTAR TRANSCENDENTAL – Secção 2)
Immanuel Kant (Königsberg, Prússia, 22 de Abril de 1724Königsberg, 12 de Fevereiro de 1804)Tradução: J. Rodrigues de Merege

Anúncios

Deixar um apontamento

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: