"os reinos e os sécu­los são muitos"

Alguém

 

Balkh Nishapur, Alexandria; não interessa o nome. Podemos imagi­nar um mercado árabe, uma taberna, um pátio de altos miradouros vela­dos, um rio que espelhou os rostos das gerações. Podemos imaginar ain­da um jardim poeirento, porque o deserto não fica longe. Formou-se um círculo e um homem fala. Não nos é dado decifrar (os reinos e os sécu­los são muitos) o vago turbante, os olhos ágeis, a pele citrina e a voz agreste que articula prodígios. Ele também não nos vê; somos demasia­dos. Conta a história do primeiro xeque e da gazela ou a daquele Ulisses que se chamou Sindbad, o Marinheiro.

O homem fala e gesticula. Não sabe (sabem-no outros) que é da li­nhagem dos confabulatores nocturni; dos rapsodos da noite, que Alexan­dre Bicorne congregava para distracção das suas vigílias. Não sabe (e nunca saberá) que é nosso benfeitor. Julga falar para uns poucos e para umas moedas e num perdido outrora entretece o livro d’As Mil e Uma Noites.

 

Jorge Luis Borges (1899 –1986)

Obras Completas III

História da Noite

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