cibercultura

Trechos da obra «Cibercultura»

Pierre Lévy

 

 

A simulação: um modo de conhecimento próprio da cibercultura  

 

(…)

Entre os novos géneros de conhecimento carregados pela cibercultura, a simulação ocupa um lugar central. Numa palavra, trata-se de uma tecnologia intelectual que decuplica a imaginação individual (aumento da inteligência) e permite que grupos partilhem, negociem e refinem modelos mentais comuns, qualquer que seja a complexidade de tais modelos (aumento da inteligência colectiva). Para incrementar e transformar certas capacidades cognitivas humanas (a memória, a imaginação, o cálculo, o raciocínio “expert”), a informática exterioriza parcialmente essas faculdades em suportes numéricos. Ora, ao serem exteriorizados e ratificados, esses processos cognitivos tornam-se partilháveis, reforçando, portanto, os processos de inteligência colectiva… desde que as técnicas sejam utilizadas com discernimento.  

 

(…)
As técnicas de simulação, em particular as que envolvem imagens interactivas, não substituem os raciocínios humanos, mas prolongam e transformam as capacidades de imaginação e pensamento. Com efeito, nossa memória de longo prazo tem a capacidade para armazenar uma quantidade muito grande de informações e conhecimentos. Nossa memória de curto prazo, que contém as representações mentais às quais prestamos deliberadamente nossa atenção, possui, ao contrário, capacidades muito limitadas. Para nós é impossível, por exemplo, representarmos clara e distintamente mais de uma dezena de objectos em iterações.
Embora possamos evocar mentalmente a imagem do castelo de Versalhes, não conseguimos contar as suas janelas «na nossa cabeça». O grau de resolução da imagem mental não é suficiente. Para chegar a esse nível de detalhe, necessitamos de uma memória auxiliar externa (gravura, fotografias, pintura), graças à qual poderemos efectuar novas operações cognitivas: contar, medir, comparar, etc. A simulação é uma ajuda para a memória de curto prazo que envolve não imagens fixas, textos ou tabelas de números, e sim dinâmicas complexas. A capacidade de fazer variar facilmente os parâmetros de um modelo e observar de imediato e visualmente as consequências dessa variação constitui-se numa verdadeira ampliação da imaginação.

Hoje em dia, a simulação exerce um papel crescente nas actividades de pesquisa científica, de concepção industrial, de gestão, de aprendizado, mas também para o jogo e a diversão (em especial os jogos interactivos na tela). Em teoria, em experiência, a maneira de industrialização da experiência de pensamento – a simulação – é um modo especial de conhecimento, próprio da cibercultura nascente. Na pesquisa, seu principal interesse não está, evidentemente, na substituição da experiência, nem em fazer as vezes de realidades, mas em permitir a formulação e a rápida exploração de um grande número de hipóteses. Sob o ângulo da inteligência colectiva, ela permite a colocação em imagens e a partilha de mundos virtuais e de universos de significado de uma grande complexidade.

Doravante, os saberes são codificados em bancos de dados acessíveis em linha, em mapas alimentados em tempo real pelos fenómenos do mundo e em simulações interactivas. A eficiência, a fecundidade heurística, o poder de mutação e bifurcação, a pertinência temporal e contextual dos modelos estão a suplantar os antigos critérios de objectividade e universalidade abstracta. Está presente, no entanto, uma forma mais concreta de universalidade pelas capacidades de conexão, o respeito de padrões ou formatos, a compatibilidade ou a interpolaridade planetária.  

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