Tempo (XII)

Extractos do artigo “O Tempo” do Prof. Dr. Rui Namorado Rosa, Universidade de Évora  

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Tempo, Mudança e Conservação

 

O tempo é permanência e é fluxo. Por outras palavras, quer a conservação quer a transformação induzem a percepção do tempo. Já as várias escolas de filosofia grega defendiam posições antagónicas; Parménides (Elea) será contraditado por Heráclito (Éfeso) e mais tarde Arquimedes (Siracusa) contraporá a Aristóteles; para uns o importante é o ser ou estar, requer permanência, para outros é o devir ou acontecer, pressupõe a mudança. Os conceitos de vácuo (permanente) e de átomo (variável), este preenchendo aquele, palco e actor representando a realidade, são uma síntese de Leucipo e Demócrito.

 

Para Isaac Newton (século XVII), reflectindo a sua interpretação da mecânica celeste, «tempo absoluto verdadeiro e matemático, por si só e por sua natureza flui uniformemente, sem relação com nenhuma coisa externa, e é também chamado duração». Para o filósofo Emmanuel Kant (século XVIII), substanciando a interpretação da ciência moderna – hoje clássica –  o espaço e o tempo constituem o quadro a priori necessário à percepção da realidade.

 

Pelo contrário, segundo Henri Bergson, o tempo deriva da experiência subjectiva; e para Jean Piaget, o tempo gera-se na fronteira entre o sujeito e o objecto; assim constatamos que o tempo adquire, já no século XX, um novo conteúdo psicológico.

 

Também nesse início do século XX, mas no “universo” das ciências exactas, Albert Einstein realiza a síntese do espaço-tempo numa só realidade, em geral percepcionada fragmentada, mas reconhecida agora como o palco conceptual necessário à compreensão sintética de fenómenos diversos e mesmo à percepção de novas realidades, entretanto descobertas. Pela mesma época, Emmy Noether realiza uma outra síntese: a conservação da grandezas mecânicas (quantidade de movimento e do momento angular) equivalem à homogeneidade e simetrias do espaço no que toca aos movimentos de translação e de rotação; e a conservação da energia mecânica equivale à homogeneidade e simetria do tempo. Matéria, espaço, tempo e energia surgem, então, como manifestações inextricáveis da realidade física.

 

A Medição do Tempo

 

O tempo astronómico foi objecto de observação desde o Neolítico e teria como fundamento a previsibilidade do movimento dos astros (com as excepções de estrelas cadentes, de cometas e de super-novas). Os círculos de pedra da cultura megalítica, cuja origem remonta ao Mediterrâneo oriental para depois, passado o estreito de Gibraltar, se estender no arco atlântico até à Escandinávia, bem como as torres de observação, desde Babilónia à Índia e também na América Central, são testemunhos dessa ciência empírica e de sua provável liturgia.

 

Já no início do século XVII, Galileu Galilei, utilizando a luneta astronómica, descobre os satélites de Júpiter, acontecimento excepcional, por revelar que há “mais mundos” para além da nossa Terra. A sua obra Diálogo sobre os dois Principais Sistemas do Mundo (1632), o geocêntrico e o heliocêntrico, encontra-se também fundamentada nessa grande descoberta observacional, de grande alcance tanto teórico como prático. Com efeito, para além dos movimentos do sol, da lua e dos restantes astro
s (devido ao próprio movimento da Terra) ser já utilizado para medir o tempo, o movimento dos satélites de Júpiter (como um relógio fixado no céu) poderia agora também ser utilizado para medir o tempo, e com vantagem, a de ser um tempo igualmente observável de qualquer ponto da Terra; esse seria aliás um objectivo que Galileu (e outros) iriam prosseguir com vista ao aperfeiçoamento das técnicas da navegação.

 

Mas a preocupação ou a necessidade de medir o tempo encontra-se documentada em outros artefactos, desde a Antiguidade: relógios de água (clepsidras) ou de areia (ampulhetas) em que, num e noutro caso, um fluido se escoa e um volume se mede ou que se esgota. Com origem igualmente remota, mas mais característicos da nossa Idade Média, temos os relógios solares (gnomões), instrumento astronómico fixo ou portátil, e os relógios de combustão (velas e candeias).

 

O relógio mecânico surge na Renascença, inicialmente com a função de indicador ou preditor de efemérides astronómicas (século XV); converteu-se depois, gradualmente, em relógio com a função de marcar o compasso da hora, tornando-se por essa via instrumental na regulação da vida comunitária, primeiro na torre do convento e da igreja ou na sede municipal (séculos XVI a XVII), mais tarde nas escolas e nas estações de comboios, do telégrafo e dos correios (séculos XIX e XX). Mas entretanto, o relógio mecânico teve ainda uma outra não menos importante evolução, esta como máquina de precisão, invenção humana da máquina do mundo, e como tal deu origem (no século XVIII) a uma exuberante produção de planetários, autómatos, relógios de sala, relógios de bolso e variados instrumentos científicos.

 

Todavia, o relógio mecânico teve antepassados longínquos. O computador astronómico de Antikythera (Grécia século I AC, descoberto em 1901) é um artefacto surpreendentemente “moderno” quer pela concepção quer pela realização; é um mecanismo analógico ou aritmético que ainda reflecte a influência da astronomia Babilónica; pela sua raridade (exemplar único) demonstra que os artífices gregos dominavam a técnica, mas que aquele instrumento ainda não tinha uma função. Um milénio mais tarde (século XI), os calendários Islâmicos, instrumentos de cálculo que testemunhavam já a influência da astronomia grega Ptolomaica, eram largamente divulgados.

 

O cronómetro ou relógio de precisão foi uma invenção de importância crucial para a navegação. Com cronómetros, dois observadores arbitrariamente afastados um do outro podem conhecer o mesmo instante no tempo, um “tempo universal”; era esta uma solução muito mais prática do que a vislumbrada por Galileu, segundo a qual o “tempo universal” seria deduzido a partir da observação do sistema planetário dos satélites de Júpiter. O cronómetro marítimo foi efectivamente desenvolvido na segunda metade do século XVIII, tendo sido determinante para o domínio dos mares pela Inglaterra e pela França que primeiro os desenvolveram e aplicaram com esse fim.

 

Para além da navegação, o cronómetro tornou-se num instrumento precioso para a cartografia e a geodesia também. Dois séculos passados, segunda metade do século XX, o relógio de quartzo permitiria a “democratização” do tempo certo, instrumental na imposição ou adesão a ritmos de vida e de trabalho mais apressados. E o relógio atómico permitiria atingir ritmos com estabilidade superior à dos próprios astros; hoje, mede-se com rigor o ritmo de rotação da Terra bem como o de pulsação de estrelas e os respectivos retardamentos. E, utilizando estes relógios atómicos e satélites terrestres, dispomos hoje da possibilidade de localizar com grande precisão um ponto à superfície da Terra, reconhecer a sua forma exacta, detectar as suas lentas deformações. São o conhecido sistema de navegação por satélite GPS (Global Positioning System, EUA),  o GLONASS (Rússia) e o anunciado programa GALILEO, agora da União Europeia.

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Extractos do artigo “O Tempo” do Prof. Dr. Rui Namorado Rosa, Universidade de Évora 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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