Ruas… Marinheiro sem mar

Marinheiro sem mar

poema incluído em Mar novo, obra publicada por Sophia de Mello Breyner Andresen em 1958

 

Longe o marinheiro tem

Uma serena praia de mãos puras

Mas perdido caminha nas obscuras

Ruas da cidade sem piedade

 

Todas as cidades são navios

Carregados de cães uivando à lua

Carregados de anões e mortos frios

 

E ele vai baloiçando como um mastro

Aos seus ombros apóiam-se as esquinas

Vai sem aves nem ondas repentinas

Somente sombras nadam no seu rastro.

 

Nas confusas redes do seu pensamento

Prendem-se obscuras medusas

Morta cai a noite com o vento

 

E sobe por escadas escondidas

E vira por ruas sem nome

Pela própria escuridão conduzido

Com pupilas transparentes e de vidro

 

Vai nos contínuos corredores

Onde os polvos da sombra o estrangulam

E as luzes como peixes voadores

O alucinam.

 

Porque ele tem um navio mas sem mastros

Porque o mar secou

Porque o destino apagou

O seu nome dos astros

Porque o seu caminho foi perdido

O seu triunfo vendido

E ele tem as mãos pesadas de desastres

 

E é em vão que ele se ergue entre os sinais

Buscando a luz da madrugada pura

Chamando pelo vento que há no cais

………………………………………………………

………………………………………………………

Porque ele se perdeu do que era eterno

E separou o seu corpo da unidade

E se entregou ao tempo dividido

Das ruas sem piedade.

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