O dia dos Deuses

O dia dos deuses

Amanhã, precisamente amanhã, vou mudar de vida!

Vou acordar sem qualquer obrigação, sem qualquer compromisso, sem qualquer dever para cumprir.

Sim, estou decidido, vou atirar tudo para o ar. Não mais tarefas cumpridas para fins dúbios; não mais a pressa irracional e inútil; não mais o turbilhão patético de um quotidiano pobremente justificado; não mais a demência automóvel do caótico obrigatório; não mais este papel secundário numa história mal-contada…

É! Não haverá complacências, simplesmente renunciarei à estrutura da eficiência equívoca e organização coloridamente contaminada onde vou tristemente submergindo.

Não mais mentiras compulsivas a favor de mecanismos maquiavelicamente planeados, moralmente duvidosos… não mais a afabilidade profissionalmente inevitável… os gestos automáticos repetidos à exaustão… as convenientes boas relações de sobrevivência superficial… a corrente eléctrica sanguínea da permanente incerteza trivial. Não mais assistirei à monstruosa mentira da inépcia global. Não mais serei engolido pelas certezas que produzem uma distorção social transparentemente injusta. Não mais sentirei a distância  entre o homem e o cidadão abismar-se dia-a-dia. Não mais a verdade instantaneamente fabricada dos media para  entendimento imediato da acefalia e preguiça nacional! Não mais a repetição doentiamente cadenciada – até ao enjoo – de slogans surrealistas da máquina de condicionamento psicológico do comportamento geral, selvatica e confortavelmente instalada…

Enfim, acabou-se o pensamento conveniente, sintonizado, pacificamente adaptado. As regras absurdas, as crenças amorfas  em virtudes plastificadas.

Sim, definitivamente mudarei!

Finalmente poderei ouvir a minha própria voz… poderei sentir a frequência dos meus ritmos pessoais. Saber o que realmente penso…

Poderei… pensar… Ter ideias minhas!…

Criar novas rotinas saudáveis, benfazejas. Acreditar naturalmente… em mim!

Ver-me e ver o mundo com bons olhos. Escutar o que tenho para dizer. Vou poder escutar realmente os outros. Ler com a vista límpida… Finalmente vou poder raciocinar livremente.

Caminhar erecto e olhar ao longe. Poderei viver! Talvez ser feliz…

Está assente. Amanhã!

Amanhã…

Mais um dia se vai abrindo! A manhã está bonita, sol a  rodos. O automóvel vai serpenteando devagar a caminho da empresa.

O trânsito cada vez mais estupidamente desumanizado.

Preciso de pensar em tirar umas férias. Nem que seja uma semana!…

Amanhã vou pensar nisso…

Amanhã…

Hermínio Euripo Jr.

Abril2004

 

        O dia dos deuses / Paul Gauguin

 

 

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