Carta – Carlos Drummond de Andrade

CARTA

Bem quisera escrevê-la

com palavras sabidas,

as mesmas, triviais,

embora estremecessem

a um toque de paixão.

Perfurando os obscuros

canais de argila e sombra,

ela iria contando

que vou bem, e amo sempre

e amo cada vez mais

a essa minha maneira

torcida e reticente,

e espero uma resposta,

mas que não tarde; e peço

um objeto minúsculo

só para dar prazer

a quem pode ofertá-lo;

diria ela do tempo

que faz do nosso lado

as chuvas já secaram,

as crianças estudam,

uma última invenção

(inda não é perfeita)

faz ler nos corações,

mas todos esperamos

rever-nos bem depressa.

Muito depressa, não.

Vai-se tornando tempo

estranhamente longo

à medida que encurta.

O que ontem disparava,

desbordado alazão,

hoje se paralisa

em esfinge de mármore,

e até o sono, o sono

que era grato e era absurdo

é um dormir acordado

numa planície grave.

Rápido é o sonho, apenas,

que se vai, de mandar

notícias amorosas

quando não há amor

a dar ou receber;

Quando só há lembrança

ainda menos, pó,

menos ainda, nada,

nada de nada em tudo,

em mim mais do que em tudo,

e não vale acordar

quem acaso repousa

na colina sem árvores.

Contudo, esta é uma carta.

Carlos Drummond de Andrade

Antologia Poética

Rio de Janeiro / São Paulo, Editora Record, 1999

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